Aos mais atentos, é nítido o aumento da pobreza no Rio Grande do Norte depois da pandemia da covid-19. Mas o que poderia ser entendido como uma percepção da realidade, foi quantificado em um estudo do economista Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Ele mostra o crescimento da parcela pobre no estado em relação ao total da população, que passou de 37,2%, em janeiro de 2019 – antes da crise sanitária –, para 40,7%, em janeiro de 2021.

O alto índice coloca o RN na 14ª posição entre os estados com maior fatia de pobres. Os cálculos foram feitos a partir de dados de renda da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua e da Pnad Covid 19, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, foi considerada a classificação de pobreza do Banco Mundial, de renda per capita de até US$ 5,50 por dia, ou cerca de R$ 450 por mês, considerando a taxa de câmbio pela paridade do poder de compra.

Apesar do percentual alto, o Rio Grande do Norte ainda é o estado do Nordeste com a menor população pobre. Ele fica logo abaixo da Bahia, cuja fatia chega a 42,9%, e do Ceará (44,3%). Na região, o Maranhão está em pior situação. Lá, a parcela mais vulnerável corresponde a mais da metade do total de maranhenses (54,9%). Em relação às variações, o RN está entre as quatro menores do Nordeste e entre as 10 menores do país. No Rio de Janeiro, por exemplo, a fatia pobre da população subiu 6,9 pontos percentuais enquanto o Distrito Federal, saltou 7,9 pontos.

Os três únicos Estados que não tiveram expansão da pobreza tinham participação acima de 30% dos pobres na população geral: Acre (46,4%), Pará (45,9%) e Tocantins (35,7%). Como referência, a fatia de população pobre na média do Brasil como um todo passou de 25,2% no primeiro trimestre de 2019 para 29,5% no mesmo período de 2021.

“A pobreza aumentou na maioria dos Estados e teve altas bastante elevadas em grandes centros urbanos, no Sudeste e no Nordeste. As economias dos centros urbanos são muito focadas em serviços, como alimentação, alojamento e entretenimento, que foram mais atingidos pelas características desta crise”, explica Duque, em entrevista à Valor Econômico.

A tendência é que a pobreza e a pobreza extrema no país permaneçam em níveis mais elevados que os observados antes da pandemia. “A gente ainda deve ter alguma melhora da pobreza, tem o auxílio de R$ 150 e depois algum efeito de Auxílio Brasil e também de uma reação do mercado informal. Mas tudo leva a crer que ela vai se estabilizar numa situação pior que antes da pandemia”, acrescenta.

O trabalho mostra ainda que ocorreu expansão da parcela da população em pobreza extrema em 18 das 27 unidades da federação, considerando renda per capita de US$ 1,90 por dia (cerca de R$ 160 por mês, também pela paridade do poder de compra). No Brasil, a fatia dos brasileiros em pobreza extrema passou de 6,1% no primeiro trimestre de 2019 para 9,6% em janeiro de 2021.