Fotos: Miguel Schincariol e Sergio Lima/AFP

O grupo de vendedores informais de vacinas que negociou com o governo federal mirava a entrega de mais de 1 bilhão de doses e citava acesso ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), à primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).As menções às autoridades estão registradas em mensagens de celular do policial militar Luiz Paulo Dominghetti, recolhidas pela CPI da Covid, mas eram vistas como blefes por parte dos próprios comerciantes.

Em plena disputa global por imunizantes, o militar que denunciou suposto pedido de propina no governo federal participou de negociações de pelo menos quatro marcas: Astrazeneca, Coronavac, Sputnik e Janssen.

As ofertas eram apresentadas em papéis de empresas que não têm aval das fabricantes, como a Davati Medical Supply.

Apesar de caricatas, as negociações chegaram à cúpula da Saúde, motivaram duas demissões na pasta, após a Folha revelar o caso, e constrangeram líderes do governo Jair Bolsonaro na CPI da Covid.

Citação a Lula

Em pelo menos três ocasiões o grupo cita a ideia de negociar com o Instituto Lula, que disse à Folha não ter discutido a compra de vacinas.

Em 18 de março, uma pessoa ligada à Senah, registrada como Amauri Vacinas Embaixada, disse a Dominghetti que o Instituto Lula teria reunião com a ONG para “aquisição de todo lote da vacina”. “Dependendo da reunião, o Lula vai anunciar a compra hoje”, disse Amauri.

“Misericórdia. Vou sentar na TV. E ficar só olhando o circo pegar fogo”, respondeu Dominghetti.

Citação a Bolsonaro

Já em 8 de março, “Amauri” cita o presidente Bolsonaro para cobrar de Dominghetti documentos da oferta da AstraZeneca. “O Bolsonaro está pedindo. Agora. Para comprar”, disse Amauri. “Agora. Para comprar.”

As mensagens mostram que o cabo da PM dizia acreditar que estava cercado de grandes executivos. Ele chega a dizer a um colega que Cristiano Carvalho, um dos líderes das negociações da Davati no Brasil, era milionário.

À CPI, porém, Cristiano revelou que pediu auxílio emergencial do governo em 2020 e disse que tinha um vínculo precário de representação da empresa. Na mesma comissão, Dominghetti havia dito que Cristiano era chefe da companhia no Brasil.

O grupo ainda envia uma oferta de 200 milhões de doses da Janssen à Saúde, sem aval da fabricante.

Quando Pazuello é demitido, Cristiano e Dominghetti traçam estratégia para se aproximar do sucessor: “Já estou nos bastidores”. Mais tarde, o policial afirma que está em contato com um “canal do novo ministro”.

A troca na pasta e a falta de respostas sobre a proposta da Janssen, porém, fazem o grupo dar como perdida a negociação.

Dominghetti segue oferecendo vacinas a prefeitos e governadores, além de medicamentos, equipamentos para saúde e até 25 mil toneladas de nióbio.

O policial esperava enriquecer com as vendas de vacinas, e falava em acabar com a vida de aperto financeiro da família. O militar chegou a pedir ajuda de amigos para abastecer o carro antes de depor à CPI da Covid no Senado.

Blefes e bravatas

Os diálogos entre o grupo de comerciantes ainda são repletos de blefes e bravatas. Em diversas ocasiões, eles dizem que compras bilionárias estão quase fechadas, mas, na prática, não há sinal de qualquer desfecho positivo das tratativas.

Dominghetti afirmou a seu pai, em 25 de fevereiro, data do jantar do suposto pedido de propina, que havia fechado um grande negócio com a Arábia Saudita e que à noite faria o mesmo com o Ministério da Saúde.

O pai também pergunta se Dias é “gente boa”. “Espetacular”, responde o policial, que meses depois o acusaria de cobrar propina.


FolhaPress