Marinho deixou o PSDB em junho. Para colegas, ele deseja ser candidato com apoio de Bolsonaro em 2022 | Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo

Rogério Marinho fracassou em 2018 ao tentar se reeleger deputado federal após ter se desgastado ao relatar a reforma trabalhista durante a gestão Michel Temer. Chamado por Paulo Guedes, virou articulador da austera reforma da Previdência aprovada no ano passado. Mas agora, o nome do ministro do Desenvolvimento Regional passou a ser associado a um adjetivo impensável meses atrás: “gastador”. É ele quem lidera a ala do governo que deseja “furar” o teto de gastos para investir em obras, contrariando o titular da Economia.

Por trás da transformação está o desejo de se cacifar como candidato a governador do Rio Grande do Norte, em 2022, e a conquista de uma proximidade com o presidente Jair Bolsonaro ao defender internamente que essas medidas visam à reeleição do chefe. Procurado, Marinho nega pretensões eleitorais e diz ser apenas candidato “a ser um bom ministro”.

Mas colegas da Esplanada e ministros com assento no Palácio do Planalto garantem que o desejo de concorrer ao governo do seu estado natal como candidato de Bolsonaro ajuda a explicar as movimentações de Marinho. A aliança que está sendo costurada contemplaria ainda a candidatura do ministro das Comunicações, Fábio Faria, para o Senado. O estado hoje é governado por Fátima Bezerra, do PT.

A disputa em torno do tamanho das despesas do governo atingiu o ápice na terça-feira da semana passada, quando Guedes disse, sem citar nomes, que auxiliares do presidente que desejam “furar” o teto de gastos o levariam para uma “zona de impeachment”. A subida de tom do ministro da Economia levou o presidente a convocar uma reunião no dia seguinte para marcar posição em defesa do teto. Na quinta, porém, o presidente afirmou não ver problema nessa discussão.

“Olhar” para o Nordeste

A pretensão política de Marinho é constantemente citada por Guedes, nos bastidores, numa tentativa de desacreditar o colega. Para o ministro da Economia, os ministros devem trabalhar pela reeleição de Bolsonaro, e não pelos próprios projetos pessoais. E, na avaliação de Guedes, a alta de gastos mais prejudica do que ajuda o caminho do presidente a 2022.

Não é isso que pensa a ala “pró-gasto” liderada por Marinho, e que conta também com ministros palacianos. Esses ministros avaliam ser necessário fazer obras, montar uma agenda de inaugurações com a presença de Bolsonaro e construir um programa social forte para reeleger o presidente. Na próxima sexta, inclusive, ao lado de Marinho e Faria, Bolsonaro deve ir ao Rio Grande do Norte para participar de uma cerimônia de entrega de títulos fundiários.

O cenário eleitoral aproximou Marinho do chefe, que o incumbiu de manter o “olhar especial” para o Nordeste. O ministro está sem partido. Ele desfiliou-se do PSDB em junho deste ano, depois de ser derrotado ao tentar se reeleger como deputado federal em 2018, quando teve 59 mil votos. A derrota o levou a cogitar, inclusive, mudar seu domicílio eleitoral para São Paulo, onde acreditava que o perfil de austeridade que lhe marcou nos últimos anos seria mais bem aceito.

Marinho chegou ao governo pelas mãos de Guedes. A atuação dele na reforma trabalhista o credenciou para o cargo de secretário especial de Previdência e Trabalho e foi o homem do governo na aprovação da reforma do sistema de aposentadorias, aproveitando a boa relação que desenvolveu com o Congresso.

Assessores do ministro do Desenvolvimento Regional afirmam que ele é ciente da necessidade de controlar as contas públicas, mas que acredita que 2020 é um ano excepcional e, como tal, não se pode deixar obras paradas. A versão dos auxiliares é que Guedes “vazou” debates internos para colocar Marinho em rota de colisão com Bolsonaro e que o ministro da Economia quer “interditar o debate”.

Em entrevista ao Globo no início do mês, Marinho lembrou que o país já terá um rombo de R$ 800 bilhões — por contas das medidas para combater o coronavírus e da queda da atividade econômica — e, por isso, não haveria problema num acréscimo de “R$ 2 bilhões a R$ 3 bilhões”:

— Parece que temos uma faca cravada no olho e estamos preocupados com o cisco.

O problema, avalia o Ministério da Economia, é que isso pode “abrir a porteira” para um gasto desenfreado, minando a confiança na recuperação fiscal. Na reunião que terminou com Bolsonaro falando em defesa do teto de gastos, Marinho ficou ao lado de Guedes na foto do pronunciamento. A proximidade, porém, hoje fica apenas na imagem.

O Globo